Muito do futuro da nossa Terra passa pela valorização dos seus recursos naturais. Mais de 80% do Concelho está inserido na Zona de Protecção Especial da Ria de Aveiro, idêntica percentagem é reserva ecológica e mais de 70% é reserva agrícola. Estes factores que, durante longos anos, foram considerados constrangimentos são hoje, face à mudança dos paradigmas económicos, vistos como grandes oportunidades de desenvolvimento.
Todos nós, nas visitas que fazemos a outras áreas geográficas, conhecemos este ou aquele lugar especial, capaz de, só por si, motivar uma viagem para o visitar. Na nossa Terra, a natureza bafejou-nos com o privilégio de possuirmos muitos lugares especiais, ou se quisermos ir mais longe, um território que é, todo ele, especial.
Um Município que alicerça o desenvolvimento nas suas especificidades territoriais, tem forçosamente que ter especial atenção à forma como esse território se apresenta, fomentando a sua atractividade em diversos domínios, como o ecoturismo, a promoção da gastronomia, a valorização da matriz identitária, entre muitos outros.
A Câmara Municipal, mesmo tendo em consideração a dimensão do Município e a escassez de recursos financeiros, tem vindo, nos últimos anos, a investir fortemente na construção de infraestruturas e na beneficiação de áreas de relevo. O parque municipal da Saldida, a zona desportiva da Torreira, o parque do Monte Branco, a requalificação das margens da Ria e a materialização de vias cicláveis são alguns dos exemplos mais recentes desta estratégia.
A intervenção no território é, primeiramente, uma função da Administração mas não é um exclusivo desta. Os cidadãos devem ser uma parte activa na construção e na afirmação da sua terra. A Dra. Maria João Carneiro, docente de Turismo da Universidade de Aveiro, no último Fórum Murtosa Ciclável, que se debruçou, precisamente, sobre o Turismo Sustentável, afirmou, na sua apresentação, que os habitantes de uma Terra são os seus melhores promotores. A simpatia, a disponibilidade e a demonstração de conhecimento acerca do território fazem mais pela imagem de um Município que muitas campanhas publicitárias.
Infelizmente, nem toda a gente está disponível para construir. Pior que a omissão ou o desinteresse pela evolução da Murtosa é a postura que alguns assumem de destruição daquilo que os outros arduamente constroem. A destruição pode assumir muitas formas, desde do insistente apoucamento e bota abaixo, por parte de alguns que mascaram de cidadania as meras intenções de promoção pessoal até ao mais primário vandalismo de mobiliário urbano e de infraestruturas públicas, passando pelo conspurcamento das áreas naturais com monos e lixo, mesmo quando a Câmara Municipal dispõe de um serviço de recolha ao domicílio. Tudo isto pode ter um efeito arrasador na imagem de uma Terra que se quer afirmar.
Embora os seus efeitos nefastos tenham visibilidade, os energúmenos são, felizmente, uma minoria. Aos outros, que são a maioria dos cidadãos, cabe também aqui um papel fundamental no zelo pela coisa pública. Às vezes, aquilo que é de todos parece não ser de ninguém. A substituição de um sinal de trânsito vandalizado, a recolocação de um painel informativo destruído ou a limpeza de parede grafitada custam dinheiro. Dinheiro que sai do bolso dos contribuintes e que poderia ser canalizado para tantas outras coisas essenciais, nestes tempos em que os recursos são cada vez menos. Devemos ter uma consciência clara de que a acção negativa representa sempre um custo e um passo atrás no processo de crescimento.
Quem tem como missão gerir o território não tem a capacidade de estar em todo o lado e ver tudo ao mesmo tempo. Os cidadãos podem e devem, por isso, ser os melhores aliados da administração, dando conta daquilo que está menos bem para que seja melhorado, assumindo, ao mesmo tempo uma postura de vigilância em relação ao património que é de todos.
A crítica, a denúncia ou a chamada de atenção, quando feitas com uma atitude de quem quer construir, não só são bem-vindas como são fortemente incentivadas por parte de quem tem responsabilidades na Câmara Municipal, pois representam uma expressão clara de cidadania activa. Construamos pois, em conjunto, a nossa Murtosa.
TEXTO PUBLICADO NA EDIÇÃO DE MAIO DO JORNAL "O CONCELHO DA MURTOSA"